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A primeira barreira aos avanços do Tejo

Alcochete tinha no Tejo a principal via de contacto com o exterior e soube aproveitar os benefícios da proximidade a Lisboa.
No Tejo as gentes de Alcochete encontraram uma forma de sustento económico e uma importante via de circulação de bens e pessoas, rentabilizada por barqueiros ou marítimos, calafates, carpinteiros navais, condutores de tojo e salineiros, que souberam retirar o “ouro branco”, das salinas inundadas pelo rio, consubstanciando ainda mais esta relação de contacto permanente ao longo dos tempos.

As revoltas do Tejo, que persistia em avançar terra adentro, tornaram necessária a criação de uma barreira física de defesa do burgo. Segundo José Estevam, em 1563 as tempestades puseram em causa a estabilidade de algumas casas, e já nesta época é referida a existência de uma “muralha”, sem localização precisa. Em 1695, o mar ia aluindo umas casas que ficavam por cima de umas barreiras muito provavelmente junto da igreja de Nossa Senhora da Vida.

A constante destruição das barreiras de proteção conduziu à construção de uma muralha, em redor do promontório da igreja de Nossa Senhora da Vida, que perante os constantes avanços do Tejo estava em risco de derrocada, uma situação arqueologicamente comprovada na viragem da centúria de seiscentos para setecentos.

O largo da Misericórdia era inicialmente uma praia conquistada ao rio aquando da construção da igreja como o mesmo nome, na segunda metade do século XVI.

O terramoto de 1 de Novembro de 1755 danificou gravemente a muralha que protegia a igreja da Misericórdia, colocando em causa a estabilidade do próprio templo e da vila, existindo mesmo partes da muralha que ficaram demolidas.

Depois de vários apelos do prior local e da Santa Casa ao rei para reparar a muralha, D. José I despachou a 3 de Outubro de 1760: “Reparou-se”.
Conclui-se desta forma que na segunda metade do século XVIII já havia muralha junto à igreja da Misericórdia e que o troço seguia provavelmente junto do burgo em direção à igreja de Nossa Senhora da Vida, mas supostamente não numa linha reta como se verifica atualmente.

Na sequência de um levantamento do estado da ruína de alguns edifícios e da muralha em 1814, ficou determinado que era urgente uma intervenção e que o “concerto fosse rápido e urgente para não se perder não só a casa das audiências, como a casa chamada do Paço, que ficava por baixo, (…) e da cadeia, que estava próxima. Se não se formasse ao longo da Vila, pelo Tejo abaixo, uma parte da muralha que suspendesse as terras, cairiam as igrejas da Nossa Senhora da Vida e Misericórdia e os “edifícios nobres”, e depois destes todos os demais prédios por estarem em igual planície”.

Sabemos que estes edifícios correspondem ao quarteirão confinado entre as ruas do Talho e do Paço, em que a face mais vulnerável, que se encontra voltada para a rua Comendador Estêvão de Oliveira, foi bastante fustigada pela ondulação.

Na primeira metade do século XIX foi construído o troço de muralha entre a igreja da Misericórdia e a igreja de Nossa Senhora da Vida, com o traçado atual, que possibilitou o aterro de uma pequena baía existente entre as duas igrejas e a consequente construção do Bairro das Barrocas.

A construção do restante troço da muralha a poente da igreja da Misericórdia, ao longo do Rossio até à Quinta da Praia das Fontes é remetida para a segunda metade do século XIX, considerando a análise das atas das sessões de câmara e demais documentação, (correspondência entre a câmara e o governo central), sendo de meados do século XX a edificação do “murete”, parte do qual está preservado no Passeio do Tejo.

No decurso de trabalhos de acompanhamento arqueológico das obras de Regeneração da Frente Ribeirinha de Alcochete, em 2013, o museu municipal de Alcochete, identificou uma estrutura na zona do largo da Misericórdia, a cerca de 2m de profundidade – que se confirmou ser um antigo cais portuário.

Situado na zona mais nobre da vila, junto da igreja da Misericórdia, e defronte do muito provável Paço Real, este cais seria muito provavelmente o antigo cais do Espírito do Santo, cuja construção está documentalmente referenciada em setembro de 1599.

Construído em alvenaria, em forma semi-circular, o cais teria cerca de 35m de boca, formando um pequena baía voltada para o rio.

A documentação escrita refere também que o maremoto sequencial ao terremoto de 1755 destruiu o cais cujas madeiras foram reaproveitadas para a construção de um novo porto, junto do antigo, este seria provavelmente o Cais do Espírito Santo, correspondendo à atual ponte cais, na sua fase inicial. Este facto histórico foi corroborado pelo trabalho arqueológico efetuado em 2013, que permitiu também concluir que no séc. XVIII o cais foi abandonada e esquecido sob o aterro criado com a construção do troço de muralha.

É notória a preocupação do município de Alcochete ao longo dos tempos na valorização da linha marginal da vila e na forma como Alcochete se apresenta ao Tejo, exemplificada nas intervenções efetuadas no Rossio e ao longo de toda a frente ribeirinha, pois, a proximidade ao rio também foi e continua a ser sinónimo de lazer.

São inúmeros os relatos de passeios e de outras atividades de lazer na frente ribeirinha, como a ida à praia com a família para a zona do Moisém, para as Hortas ou para a Praia dos Moinhos.

Pela sua importância histórica, identitária, turística e económica, a frente ribeirinha de Alcochete assume-se como o Passeio do Tejo, que desde a rua do Norte até à avenida D. Manuel I, passando pelo largo da Misericórdia, convida a um aprazível passeio à beira-rio.

 

Cronologia

Séc. XVII/XVIII – Construção da muralha em torno do promontório da Igreja da Sra. da Vida
1760 – Reparação da muralha em redor da Misericórdia, destruída pelo terramoto de 1755, por ordem de D. José
1825/26 – Início da construção da muralha entre a Igreja da Misericórdia e a da Nossa Senhora da Vida e construção do Bairro das Barrocas
Séc. XIX – Construção da muralha a poente da Igreja da Misericórdia
Séc. XX – reparações na sequência de degradação provocada pelas águas do Tejo
Séc XXI - 2013 - Inicio das obras de requalificação da Frente Ribeitinha de Alcochete, desde a a rua do Norte, largo da misericódia e avenida D. Manuel I
2014 – Inauguração do Passeio do Tejo

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