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Alcochete na 3.ª Pessoa

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Entrevista ao escritor, Luís Ferreira

"FAÇO QUESTÃO QUE OS MEUS SONHOS SE TORNEM REALIDADE"

Não é alcochetano, mas sente-se de Alcochete. E, talvez por isso, não hesitou em prestar uma homenagem às pessoas desta vila ribeirinha através da escrita. E é também através das palavras que procura concretizar os seus sonhos e dar "asas" à sua imaginação. Escritor e poeta, Luís Ferreira fala-nos das suas últimas obras e também da "bagagem" enriquecedora dos caminhos de Santiago que lhe têm proporcionado desde que se tornou peregrino, em 2011.

“Só conseguirás valorizar as coisas importantes na vida quando descobrires quem és”. Esta é uma das inúmeras frases inspiradoras que podemos encontrar na sua página oficial de facebook. Quem é o Luís Ferreira?

Luís Ferreira: Bem, às vezes não sei (risos). A verdade é que ando sempre à procura da minha identidade e daquilo que sou e isso também faz com que veja a vida de várias formas e de diversos prismas. A vida é um caminho. Poderia referir um conjunto de adjetivos que me caraterizam, mas, prefiro que sejam os outros a demonstrarem aquilo que veem em mim, que é muito mais real. Mas posso dizer que tenho um coração muito grande, sou positivo e amigo dos meus amigos. Sou o que vocês veem.

No romance “Entre o Silêncio das Pedras”, o personagem principal dá um novo rumo à sua vida depois de realizar o caminho de Santiago. O que mudou no Luís Ferreira depois de ser peregrino?


L.F.:A nível pessoal não mudou muito em mim. O caminho obriga-nos a refletir sobre um conjunto de questões, mas muitas das vezes, isso só ajuda a "encaixar" as próprias ideias e a sairmos mais fortalecidos. Mas algo mudou: desde 2011 que todos os anos faço o caminho de Santiago. Sinto necessidade de estar em liberdade porque vivemos sempre a correr e com stress e, no caminho, conseguimos estar com nós próprios, num meio natural, livres e libertos. Sinto-me bem comigo, com o mundo e em liberdade. 
Já na escrita, mudou muita coisa. Além de me centralizar mais na prosa, comecei também a escrever mais pensamentos, reflexões e essa foi, talvez, a minha maior transformação. Quem conhecia o Luís Ferreira antes do caminho de Santiago encontrava um autor muito associado à escrita do amor, com uma veia poética ligada ao amor. Depois do caminho, encontra um Luís Ferreira com uma escrita completamente diferente, com outra visão de vida, não focando tanto o amor (que é sempre necessário), mas abordando outras situações.

Há alguma rota que nunca tenhas realizado e que ambicionas fazer?

L.F.: Sim, o ano passado fiz o caminho francês, mas não na sua totalidade. Comecei em Leon (Espanha) e caminhei durante quinze dias até Santiago. De facto, espero em 2021, ano Jacobeu, realizar o caminho todo: começar nos Pirinéus até Santiago. É algo que deve ser marcante. Só fiz metade desse caminho mas fiquei apaixonado, completamente vidrado. 

Como preparas anualmente o caminho?

L.F.: Fazer o caminho não é fácil nem é um mar de rosas. Temos jornadas de 20 a 30 km, sempre a subir e a descer. Tento ter uma atividade diária, que me permita manter o corpo são e, para além disso, sou muito organizado, leio muito antes de fazer qualquer coisa e o caminho de Santiago não foge à regra. Consumo muitos livros, faço pesquisas e, por isso, sei o que vou encontrar. E acho que isso sim, deve ser bem planeado. Temos também que ter algum cuidado com a mochila, não levarmos peso a mais, nem material desnecessário. Até porque, psicologicamente, se começarmos a pensar nos quilómetros que temos que pela frente pode ser desanimador. Agora o caminho também dita as suas regras e, muitas vezes, somos também obrigados a alterar.

O que tens que levar sempre contigo em cada viagem?

L.F.: Quanto menos peso levar, melhor! Levo um bloco que, por incrível que pareça, é cada vez mais pequeno e uma caneta. O suficiente para tomar notas. Tento reduzir ao máximo o peso como já disse e, portanto, o melhor é levar apenas o indispensável. Levo apenas barras energéticas e água. Também não vamos para o deserto, passamos sempre por cidades e vilas e, como tal, não precisamos de levar comida. No entanto, temos que ter atenção porque numa determinada etapa podemos não passar por nenhuma aldeia ou vila e, por isso, a preparação é fundamental. Este ano, no caminho primitivo, fomos ao ponto mais alto dos picos da Europa, foi uma rota de 26km, onde não encontramos nem água, nem comida, mas são exceções!

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“Entre o Silêncio das Pedras” é um romance que retrata a ligação com o caminho de Santiago, mas também, com Alcochete?

L.F.: Sim, quando escrevi este livro tentei, acima de tudo, prestar uma homenagem ao povo de Alcochete. Como sabem não nasci cá, sou residente, mas apaixonei-me pela Vila, pelas suas tradições, pelo bairrismo e pela forma como as pessoas acolhem. E desde que vim para cá morar sempre fui bem acolhido por todos inclusive na casa em que nos encontramos, na Biblioteca de Alcochete, e por pessoas ligadas ao poder local. E achei que deveria retribuir de alguma forma. Como estava a escrever o romance, pensei que talvez essa fosse a melhor forma. Ou seja, escrever um romance que fala do local onde resido, dando a conhecer ao mundo onde fica Alcochete. Tenho tido ecos de pessoas que, depois de lerem o livro, vieram de propósito conhecer a Vila e amigos que residem em Espanha, Brasil e noutros locais do mundo que leram o livro e que já me disseram que querem vir a Alcochete. Portanto acho que consegui transmitir a forma de viver dos alcochetanos e esta maravilhosa Vila. No fundo tentei retribuir tudo o que me deram, através daquilo que melhor sei fazer: escrever.

É um romance que vai na sua 2.ª edição, que passou fronteiras e chegou a mercados como a América Latina. Como vê este crescimento e recetividade?

L.F.: O livro fala de algo que apaixona pessoas de todo o mundo, que é o caminho de Santiago. Depois trata-se de um livro que teve uma boa aceitação por parte da critica e de quem o leu, o que levou a que se abrissem portas que eu também não esperava. Receber uma mensagem de alguém que leu o livro na Argentina, que não fala português ou de alguém que o comprou na Alemanha, deixa qualquer pessoa orgulhosa e satisfeita. Em Espanha a procura tem sido muito grande, ao ponto de haver a necessidade de traduzir o livro para castelhano, o que é um desafio. Em março passado, estive em Santiago a apresentar o livro, em português, e tive muitas pessoas que o acabaram por comprá-lo, mas de facto, quando estou em Santiago ou quando falo com amigos do país vizinho dizem-me que gostaram muito do livro, mas que perderam tempo a encontrar tradução.

Onde se sente mais confortável: na poesia ou na prosa?

Comecei a escrever poesia, que gosto muito, e onde sempre me senti “como peixe na água”. Depois participei numa antologia, escrevi um conto, e foi a ponte para o romance “Entre o Silêncio das Pedras”. Se tivesse que escolher, optaria pela prosa porque é onde dou mais “asas” à minha imaginação. Na poesia abordava muito os sentimentos e o amor, o que me deixava preso de certa forma e essa foi uma das situações que me levou a parar de escrever. As pessoas que liam os meus poemas poderiam pensar que era repetitivo e com a prosa tenho outra liberdade. Posso criar outras personagens, cenários e outro tipo de histórias.

imagemNo “O Diário de Xavier Lopes” como surgiu a compilação dos pensamentos que o compõem?

L.F.: “O Diário de Xavier Lopes” tinha que ser necessariamente um livro de autoajuda porque foi o fio condutor da personagem do livro "Entre o Silêncio das Pedras". A minha intenção foi colocar num livro o que o peregrino Xavier Lopes escreveu ou sentiu quando fez o caminho. O livro está dividido em três núcleos. Um primeiro com pensamentos meus, reflexões que fui apontando ao longo do caminho. Depois um outro núcleo, com um conjunto de pensamentos de pessoas da nossa história e com as quais me identifico. E um terceiro são frases de pessoas anónimas que encontramos escritas numa parede, num bocado de madeira ou numa pedra e que nos chama a atenção. Não sabemos quem é o autor mas são frases fortes, que nos ajudam a refletir e sendo um livro de autoajuda, acho que tenho uma boa composição que ajudará a pessoa a refletir. Aliás, não é à toa que encontramos as tais frases de gente anónima escritas porque, no fundo, são partilhas e reflexões que as pessoas têm ao longo do caminho e se falarmos com peregrinos de todo o mundo vamos perceber que todos têm um caderninho, onde vão deixando algumas anotações.

Das tuas frases ficaram muitas de lado?
L.F.: Sim muitas!

Estamos a realizar a entrevista na Biblioteca de Alcochete que, para muitos, é a “Casa dos Sonhos”. Esta é também uma casa especial para o Luís Ferreira?

L.F.: É sem dúvida! Já lancei três livros aqui e não me esqueço do que inicialmente me disseram: que esta era a casa dos sonhos e que permitia realizar todos os sonhos. E, a partir daí, faço questão que os meus sonhos se tornem realidade através dos meus livros. É uma alegria imensa ter uma Biblioteca repleta quando apresento um livro. Se puder, através dos meus livros e do que escrevo, permitir que mais pessoas conheçam a Casa dos Sonhos e que visitem Alcochete, irei continuar a fazê-lo. Há pessoas que vêm de propósito a Alcochete, à biblioteca, para assistirem ao lançamento do meu livro e assim dou a conhecer um pouco esta Casa. Esta não é uma biblioteca comum. Tenho feito várias apresentações pelo país, muitas em bibliotecas, e nunca me esqueço de referir esta casa. Não quero dizer com isso que somos melhores ou piores que os outros. Quero apenas demonstrar aquilo que de bom fazemos. Aliás, disse na última apresentação, que enquanto tiver livros para lançar, enquanto acreditar neste projeto e achar que devo escrever e que as minhas obras têm valor irei sempre fazer as minhas apresentações aqui. Poderia escolher um outro espaço, com capacidade para mais pessoas, mas porque não fazer num local onde nos sentimos bem? Há um serviço cultural, social, que a própria Biblioteca presta e que não se restringe à área literária. E este é um exemplo a seguir. É uma Casa que ajuda a sonhar!

Alcochete é fonte de inspiração?

L.F.: É e foi, tanto que escrevi o “Entre o Silêncio das Pedras” com muitas referências a Alcochete. Passeio muito pela Vila e surgem-me muitas ideias. A história do próximo livro não passará por Alcochete, mas provavelmente  terá Alcochete no livro. A Vila tem um conjunto de histórias que, se explorarmos bem, teremos fontes de inspiração e ideias que nos permitem alimentar muitas páginas. E, portanto, basta apenas estar atento e absorver tudo aquilo que Alcochete oferece.

 

  • Em duas palavras, Alcochete é...

    Maravilhosa e bela. 

  • Local de eleição:

    Biblioteca de Alcochete. 

  • Quanto à doçaria local, arroz doce branco ou fogaça?

    Gosto de ambas, mas a fogaça é mais típica. 

  • Três sítios a não perder numa visita a Alcochete:

    Embora seja muito difícil responder a esta questão eu vou eleger o Largo de São João, porque é o coração da Vila, a praia dos Moinhos, que tem uma vista maravilhosa sobre o rio Tejo e Lisboa, e não posso deixar de convidar as pessoas a realizarem um percurso pelas principais ruas de Vila, desde o Largo de São João até à ponte cais, para perceberem e conhecerem o modo de vida das gentes locais. Vir até Alcochete e não conhecer as pessoas e não circular a pé pelas ruas é o mesmo que não conhecer Alcochete. 

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