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Conversas sobre o sal reavivam memórias de tempos difíceis em Alcochete

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28 Setembro 2017
No âmbito das Jornadas do Património, a câmara municipal promoveu no passado sábado, 23 de setembro, na biblioteca de Alcochete, a iniciativa “Do Sal, a Revolta e a Esperança: conversas sobre o sal” na qual participaram dois antigos salineiros alcochetanos.

José Feliciano e João Samouqueiro foram as figuras em destaque nesta conversa sobre o sal, moderada pela vereadora da cultura, Raquel Prazeres, na qual participaram também, com a partilha de vivências na primeira pessoa destes tempos difíceis em Alcochete, Miguel Boieiro, Manuela Boieiro, Francisco Nascimento e ainda Carlos Fernandes, em representação do Comité Central do Partido Comunista Português.

“Para que estas memórias não se percam organizámos estas conversas sobre o sal, para que possamos perceber melhor o que é que aconteceu, como é que era a vida nessa altura e como é que tudo se passou, na greve dos salineiros que fez, este ano, 60 anos”, começou por dizer a vereadora Raquel Prazeres, que agradeceu a presença dos dois antigos salineiros, de Carlos Fernandes do PCP, “que gentilmente cedeu o original do Avante que saiu há 60 anos e que falava da greve dos salineiros em Alcochete e da terrível situação pela qual passaram os alcochetanos, e ainda à RTP que cedeu gratuitamente a reportagem “O Sal da Vida”, filmada em Alcochete.

As conversas sobre o sal integraram a programação das Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema Património e Natureza –um vínculo que se encontra na génese das formas de ocupação do território, nos assentamentos humanos, na configuração das paisagens, na diversidade das construções da arquitetura, do urbanismo, nos modos de vida e tradições. E para Raquel Prazeres “quando se fala nos modos de vida em Alcochete não se pode esquecer a ligação ao rio, a ligação ao trabalho, as dificuldades que se foram sentindo e a forma como este povo as conseguiu ultrapassar”.
“Tudo isto faz parte do modo de ser, do modo de estar do alcochetano e é preciso entender como chegámos até aqui para melhor conseguirmos projetar o nosso futuro, desejá-lo e imaginá-lo”, sublinhou a vereadora da cultura.

Foi uma tarde diferente, de recordações e muita emoção! João Samouqueiro começou a trabalhar nas salinas aos 14 anos, aos 24 foi preso pela PIDE, por querer ir trabalhar noutra salina, e mais tarde integrou os quadros da câmara municipal numa vida, que resumiu de muito dura e de muito trabalho. “Fui o 5.º homem a ser preso [em Alcochete], era o mais novo, tinha 24 anos. Fui preso a 15 de agosto pela festa do Barrete Verde e saí ao dia 4 de outubro. Durante este tempo fui 8 vezes à rua António Maria Cardoso”(à sede da PIDE), recordou o salineiro.

Para José Feliciano a vida no sal começou bem cedo e aos 8 anos começou a dar água aos outros salineiros, pois sendo o mais velho de 7 irmãos teve de começar a trabalhar e só depois “com mais idade e mais força comecei a puxar sal como os homens” afirmou, partilhando ainda com alguma dose de humor que na época da greve em que a PIDE perseguia os salineiros grevistas “houve gente a esconder-se no campo que chegou a fugir com medo uns dos outros”.

Os tempos eram duros e amargos e a reportagem da RTP que há 20 anos abordou a greve de 1957 com testemunhos de muitos salineiros que nela participaram reavivou memórias e emocionou Miguel e Manuela Boieiro.

“Fiquei bastante emocionado ao ver esta reportagem porque vivi estes tempos. Quando vim para a câmara uma das coisas que eu entendi que devíamos avançar era com uma estátua de homenagem ao salineiro, que está no largo que não sendo oficialmente o largo do salineiro toda a gente se refere ao largo como o largo do salineiro”, disse Miguel Boieiro.

O ex-autarca leu o texto publicado no Boletim Municipal de janeiro de 1986 onde abordou a inauguração da estátua do salineiro da autoria de Francisco Simões. “Foi um processo difícil mas conseguimos”, diz o ex-autarca que recordou que foram precisos 2 anos a comprar bronze ao ferro velho para fazer a estátua.

É de sua autoria a frase “Do Sal, a Revolta e a Esperança” aprovada por unanimidade pela câmara municipal, e que está inscrita na base da estátua, inaugurada em 1 de dezembro de 1985.

Manuela Boieiro partilhou também algumas histórias destes tempos difíceis em Alcochete e disse que “esta iniciativa é muito emocionante para quem viveu como nós estes tempos e por isso quero dar os parabéns à câmara municipal pela iniciativa”.

“Há muito trabalho a fazer sobre a greve dos salineiros e é muito importante recolher os depoimentos orais dos salineiros que ainda estão vivos e toda a documentação sobre esta temática”, acrescentou a presidente da assembleia de freguesia de Alcochete.

Carlos Fernandes destacou os testemunhos ouvidos na primeira pessoa “de luta e resistência de gente que sentiu na pele a exploração a um nível que hoje os jovens, apesar da precariedade que existe e da exploração que continua, não sentiram”. E sublinhou que: “Esse seu exemplo de coragem, de resistência e de luta é um exemplo muito importante que esta iniciativa aqui nos deixa, pois uma greve realizada em pleno período da ditadura fascista em 1957 com aquela unidade que foi possível construir, com uma mobilização que fez com que aquele trabalho parasse naquele dia, foi uma resposta de grande coragem, e de acordo com a caraterização que é feita, é uma inspiração que fica na memória daqueles que a fizeram e eu acho que é um grande exemplo para aqueles que continuam a lutar no presente e no futuro”.

“Fico contente de ouvir o José Feliciano e o João Samouqueiro conseguirem falar deste passado tão difícil, mas de uma forma bem disposta e trazer aqui também alguma esperança, pois estes não foram tempos fáceis”, concluiu a vereadora Raquel Prazeres.

No final destas conversas sobre o sal os participantes puderam levar cópias dos artigos publicados no jornal Avante, da quinzena de agosto e de outubro de 1957, sobre a greve dos salineiros de Alcochete.

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